quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

2012, um ano especial

Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.
Mateus 25:21
Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te 
 "Bem está, servo bom e fiel. 
 Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor."

Mateus 25:21


Este foi um post que escrevi ontem pela manhã, no facebook:

Hoje foi o dia de buscar a avaliação final da Chloe na escola. Nossa filha está mais que aprovada: "sempre um pouquinho adiantada"! Este é o resultado da alfabetização "compartilhada" na qual investimos neste ano de 2012: não esperamos que a escola e a professora fizessem tudo sozinhas (especialmente em se tratando de uma escola pública com recursos bem limitados), mas estudamos muito em casa também. O melhor, no entanto, não foi a aprovação na escola, nem mesmo a aquisição dos rudimentos da língua portuguesa, mas ver despertado o sincero, tranquilo e constante desejo de conhecer em minha filha, que pode ser resumido na sua seguinte frase: "Mamãe, eu não quero só brincar nas férias. Eu também quero estudar". Eis aí a melhor das recompensas. =)

Grande conquista para a primeira série, não? Penso que vocês possam imaginar o tamanho do meu orgulho, da minha alegria e da minha gratidão a Deus pelo privilégio de poder ser mãe e dona-de-casa (além de esposa) em tempo integral e exclusivamente, dedicando-me, assim, a ajudar a Chloe naquilo que ela precisa e merece nessa fase de sua vida.

Quem tem acompanhado este blog, apesar dos imensos intervalos de tempo entre as postagens, talvez se lembre que duas outras coisas foram fundamentais para a melhoria do desempenho da Chloe como aluna e do meu próprio como mãe neste ano de 2012.

A primeira delas foi a decisão de intensificar e qualificar o tempo de estudos de nossa filha em casa. Por volta de junho/julho, ou seja, na virada para o segundo semestre, depois de alguma pesquisa minha e do Gustavo, vimos que não poderíamos deixar a formação intelectual de nossa menina somente por conta da escola e da respectiva professora. Na verdade, tal percepção, diga-se, bastante óbvia, foi anterior, mas como ainda não contamos com uma tradição de homeschooling no Brasil e também não temos formação na área de educação infantil, ficamos, durante alguns meses, meio perdidos, sem saber direito o que e como fazer para aprimorar o desenvolvimento da Chloe.

Assim, como disse, por volta do meio do ano, começamos a aplicar duas ferramentas básicas: a cartilha de alfabetização "Caminho Suave" e um caderno de caligrafia com exercícios feitos por mim, já que não encontrei nem sequer um mísero livro ou caderno de caligrafia com exercícios prontos disponível no mercado e minha letra é bastante boa. O resultado foi imediato: Chloe amou a cartilha e os exercícios. Claro, estes últimos foram feitos inicialmente em doses homeopáticas, pois enquanto não se adquire uma maior familiaridade com a escrita a mão costuma doer facilmente.

Além disso, no início de julho aumentamos a rotina de leituras diárias, antes restrita a historinhas bíblicas antes de dormir e esporádicos livrinhos aleatórios durante o dia. Ganhei de uma amiga os três primeiros livros da série "A lenda dos guardiões", dos quais passamos a ler um capítulo à tarde e outro à noite. De lá para cá, com alguns poucos dias sem leituras devido aos cansaços por conta dos passeios e outros dias em que não consegui comprar os novos exemplares da série, já concluímos os cinco primeiros volumes, todos eles com mais de 100 páginas e sem figuras. Lemos também, nestes intervalos em que ficamos sem "A lenda", "As meninas exemplares" umas três vezes, além de uns seis volumes de uma série maravilhosa, publicada pela Editora Sinodal, de histórias bíblicas, mas estes são curtinhos e com imagens, ou seja, são lidos de uma só vez antes de dormir. Por fim, "O céu é de verdade", de Todd Burpo, a história verídica de um menino que teve uma EQM e conheceu o céu, foi lido uma vez, e a Bíblia, numa versão para crianças maiores, foi lida umas duas ou três vezes.

A outra coisa, porém, que melhorou os nossos desempenhos e principalmente nossos relacionamentos, foi a doação que fizemos da nossa TV por volta do meio do mês de agosto. Como relatei neste post aqui, as crianças já estavam preferindo assistir desenhos a brincar, o que me angustiava bastante. Mas, por incrível que pareça, ambos se acostumaram facilmente à ausência da TV. Claro, a demanda por atenção aumentou, e, com ela, minhas desculpas para a omissão diminuíram. Assim, as crianças têm passado mais tempo junto a mim, mas também têm passado mais tempo brincando, seja individualmente, sejam juntas. As aulas de flauta duraram umas sete ou oito aulas, algumas das quais foram repetidas, e não foram adiante porque o Gustavo, que esteve desempregado e era o professor, voltou a trabalhar. Já o lapbook de corujas estendeu-se por umas dez ou doze atividades, incluindo quatro delas de caligrafia. Além disso, com a ausência de um elemento exaustor da atenção das crianças, ambas ficaram mais atentas, menos inquietas e, por incrível, que pareça, mais bem dispostas; parecem-me, enfim, algo como "mais inteiras". Passei a incluir a Chloe em algumas tarefas simples da casa, como arrumar a própria cama, secar parte da louça, ajudar-me com as bagunças do Ben, varrer uns farelinhos de pão, desvirar as próprias roupas e arrumar as almofadas da sala. Ela não faz todas essas coisas todos os dias, mas pelo menos duas delas. Finalmente, graças ao maior tempo juntas, minha filha tem transbordado perguntas sobre os mais diferentes assuntos, o que tem sido muuuuito bom para que eu capte como andam as coisas em sua cabecinha e em seu coração, coisa que antes acontecia, mas em bem menor quantidade.

E para os que se escandalizam com a falta de TV, um recado: não, não se preocupem, minha atitude não foi impensavelmente radical e não é coisa de fanática religiosa. Chloe assiste, sim, em média uma vez por semana, algum bom desenho pela internet ou joga algum joguinho de qualidade, e vê um filme a cada dois meses mais ou menos.

Apesar de as decisões e atitudes tomadas parecerem difíceis, cansativas ou radicais, garanto a vocês que não há melhor trabalho, maior responsabilidade e melhor recompensa do que investir voluntária e conscientemente na educação integral dos próprios filhos e ver os excelentes frutos no incremento de suas habilidades, na ampliação de seus conhecimentos e no aprofundamento de seu caráter.  Tenho plena ciência de que minhas crianças não são minhas, mas de Deus, o qual as entregou a mim e ao meu marido para que fizéssemos o melhor trabalho possível como pais. O meu desejo, portanto, para o ano de 2013, é continuar, guiada pela sabedoria e sustentada pela graça divinas, a amar, cuidar e ensinar os nossos filhos, e melhorar ao ponto de poder ouvir de Deus, quando for prestar contas sobre os meus atos, as palavras do versículo de abertura deste post.

Que Deus te abençoe e até o ano que vem. =)


sábado, 13 de outubro de 2012

Em resposta a um amigo

 Pergunta de um amigo feita por mensagem privada no Facebook:

Oi Camila!
Seguidamente tu falas nas tuas leituras pra teus filhos.
Sempre gostei de ler, e gostaria que o __________, meu menor, também tomasse gosto.
Teus filhos não tem muita idade, assim como o meu, apenas 3 anos e 7 meses. Como faço pra prender a atenção dele, ele é inquieto, que tipo de livros são adequados? Se tu puderes me ajudar, fico grato!
A _________, mais velha, já tem 16 anos, odeia ler! Quando ela quis ler Crepúsculo, mesmo contrariado, deixei, na esperança que ela tomasse gosto, e aí partisse para outras leituras. Ledo engano o meu, ela nem terminou de ler. Não queria te encher, mas li teu texto no blog, e pensei em arriscar, pois tu conseguiste por este hábito em teus filhos. Se achares muito abuso podes dizer.
Paz De Cristo!


Minha resposta:
Imagina que isso seria um abuso, ________! Eu me sinto é feliz por poder compartilhar contigo um pouquinho da minha experiência nesse assunto.

Bom, pra começar, eu e Gustavo gostamos muito, muito de estudar - nós começamos a nos conhecer porque tínhamos interesse sobre um mesmo autor e passamos a trocar artigos sobre ele -, ou seja, estamos sempre lendo, seja livro, polígrafo, revista, jornal ou na internet. Assim, Chloe, que atualmente tem 6 anos, tem crescido vendo o nosso apreço e familiaridade com os textos, o que tornou tudo muito mais natural para ela. Com o Benjamin não tem sido diferente neste sentido. Em resumo, as crianças acabam fazendo aquilo que nos veem fazer. O teu exemplo e de tua esposa tem um papel decisivo, tanto neste quanto em qualquer outro assunto. Isto é, se vocês não têm o costume de ler, ficará mais difícil para que eles tomem a iniciativa de fazê-lo.

Mais recentemente, porém, em função da Chloe estar no período de alfabetização, comecei a pesquisar a respeito - especialmente sites americanos de ensino doméstico - e compreendi mais claramente a importância da leitura para as crianças. Eu sempre li para a Chloe, mas normalmente o fazia quando ela pedia - exceção feita à Bíblia, que já há alguns anos lemos para ela à noite nas versões adequadas para cada idade. Assim, neste ano, passei a ler para ela duas vezes por dia: à tarde e à noite, antes de dormir. Claro, são leituras que a interessam: à tarde "As meninas exemplares" e à noite "Os guardiões de Ga'Hoole", o primeiro sobre amizade entre meninas e o segundo sobre aventuras de corujas. Quem sabe se começas com o _________ a leitura diária de uns pedacinhos da Bíblia? Existe uma versão chamada "A Bíblia das criancinhas" que tem uma frase apenas por página e desenhos bem fofos e coloridos. Encontre um horário em que ele esteja mais quietinho e leia sempre, todos os dias um pouquinho. A repetição da rotina criará o hábito.

Quando leio à tarde, é muito comum o Benjamin aninhar-se em meu colo para ouvir a leitura. Claro que às vezes ele quer pegar o livro, contar a história do jeito dele, enrolando a língua pois ainda é um bebê, mas nada que não se resolva com paciência e carinho. Às vezes, raramente na verdade, ele não quer ficar junto. Nesses casos eu deixo ele brincando por perto, para que ouça mesmo que esteja fazendo outras coisas. É importante ficar atento à idade e à capacidade de concentração da criança. Teu menino tem uma capacidade de concentração pequena, mas nada impede que leias para ele enquanto ele brinca com alguma coisa, faz um desenho, joga um joguinho - não eletrônico -, mas sempre estando por perto, sempre sem tv ligada, sem rádio ligado, sem computador ligado, pois caso contrário a dispersão será total.

Por fim, _________ querido, é importante ler demonstrando que esse momento é um tempo bom, onde a leitura é feita com calma, dando o tom certo para as exclamações, interrogações, reticências, pronunciando bem claramente as palavras, pois assim a dicção de todos melhora e eles aprendem as palavras e frases com as pronúncias, ênfases e ritmos certos. Na hora de alfabetizá-lo, tudo será mais fácil.

Quanto à tua menina, pela idade dela a coisa fica um pouco mais difícil. Se ela gosta de filmes, podes pesquisar alguns que mostrem esse hábito nos personagens. Um bem bacana é "Encontrando Forester", com Sean Connery. Não é antigo e deve estar disponível na internet. Além disso, para começar - pois ela parece não ter muita paciência -, talvez seja bom algumas coisas mais curtas, como letras de música, poesias, trechinhos de frases bacanas e revistas. Tente descobrir, observando-a, quais são os assuntos que a interessam. Minha irmã, por exemplo, também tem 16 anos e é apaixonada por história. Assim, no seu penúltimo aniversário, dei a ela o "Guia politicamente incorreto da história do Brasil", que ela devorou e amou. Quando descobrimos os gostos e interesses, a questão torna-se simplesmente a abordagem e o tempo certo. Se descobrires os interesses de tua menina, mas não souber muito bem encontrar possíveis conteúdos, me procure que eu te ajudo, afinal, já fui uma menina também. =)

Espero ter te ajudado! Se ficou alguma dúvida, me escreve de novo, ok?
Um abração e fiquem com Deus!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Conselhos a uma amiga

"Porventura andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?"

Amós 3:3


Reproduzo neste post uma mensagem em resposta 
a uma amiga que contou-me sobre a decisão de ter um bebê.


Querida ______!

Que grande notícia! Que boa disposição do coração!

Saiba, no entanto, de duas coisas sobre as quais muito pouco se fala, mas que, na minha modestíssima opinião, são realmente fundamentais:

- A primeira delas é a união entre vocês. Não só ter pai e mãe é importantíssimo, mas tê-los unidos e, ao máximo possível, em concordância. É a estabilidade do casal o que por primeiro fornece a segurança da criança e o desenvolvimento equilibrado de sua personalidade. Um casal que se separa ou que vive como se separado estivesse, onde cada um puxa para um lado, desorienta emocional, psicológica e moralmente a criança. Não é por acaso que de uns anos para cá o número de pessoas inseguras e/ou que se vitimizam até não mais poder só tem aumentado! Claro! Os pais deixaram de ser o firme fundamento de antigamente, abandonando as crianças mais ou menos à deriva. Por isso, querida amiga, por favor, não me leve a mal, mesmo, por escrever essas coisas. Mas penso que quando o sonho é grande e muitíssimo desejado, o cuidado precisa ser proporcional. Não pense que faço aqui a defesa de um relacionamento ideal, de uma fantasia, de uma propaganda de margarina impossível de atingir. Não. Meu próprio casamento não nasceu do modo como acima descrevi. Éramos confusos e desunidos, mas nos dispusemos a trabalhar juntos, com um coração humilde e perdoador, em prol do nosso projeto comum, a nossa família. Ou seja, não acredito em conto de fadas, mas acredito que as circunstâncias podem ser transformadas, podem ser melhoradas, desde que haja abertura, desejo e comprometimento. No nosso caso, o eterno ponto de concórdia não foram os nossos sentimentos, pois esses mudam ao longo do tempo, mas foi a nossa fé que sempre nos uniu e reuniu, a qual, por ser comum a nós dois, levou-nos à busca das mesmas práticas: da sinceridade, da humildade, do perdão, da perseverança. Não sei se vocês têm alguma religião, mas sempre é bom pensar nesse lado espiritual, que repercute sobre tudo o mais.

- A segunda coisa é a seguinte: o que as crianças mais necessitam, desde a gestação até a idade adulta, não é de estrutura financeira nem física, não são dúzias de sapatos, enxovais para 3 crianças, brinquedos importados, jogos da última moda etc., mas de tempo, de dedicação, de disposição de deixar-se gastar em amor, tal como a vela, que para iluminar e aquecer precisa consumir-se, desmanchar-se... O que mais se vê hoje em dia é justamente o oposto: pais dispostos a dar de tudo aos filhos, menos entregarem-se a si próprios, e quando o fazem, não é sem reservas e reclamações. É claro que boas condições ajudam muito, mas jamais substituirão um coração atento e braços dispostos. É claro também que o tipo e a quantidade de demandas muda com o tempo, e devemos adequar-nos a isso, mas a disposição do coração e dos braços deve permanecer sempre a mesma.

Perdoa-me por escrever tanto! Se disse algo de que discordas, fica à vontade para me contrariar! Não sou dona da verdade, mas tenho aprendido muito nestes anos de mamãe em tempo integral e não posso me omitir em compartilhar aquilo que tanto nos tem feito bem.

Quando puder, me manda notícias!
Um beijão e um abraço apertado! Que Deus abençoe a vocês dois e ao projeto de vocês! Que venha o baby!

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

As meninas exemplares

"Além disso, irmãos, tudo o que é verdadeiro,

tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro,

tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável,

eis o que deve ocupar vossos pensamentos."

Filipenses 4:8


O post de hoje é novamente uma indicação de livro para ler com as crianças. Refiro-me ao "As meninas exemplares", da Condessa de Ségur. Há anos conosco, jamais tinha dado atenção ao livrinho até o dia em que havíamos concluído mais um volume da série Os Guardiões de Ga'Hoole e não havíamos adquirido o volume seguinte. Sem nada mais extenso que pudesse ler, algo que nos acompanhasse durante alguns dias, corri os olhos sobre o texto e, não encontrando nele nenhum problema mais evidente, pus-me a lê-lo para a Chloe e para o Benjamin. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir nele um tesouro.

A Condessa de Ségur, como mais tarde pude descobrir, nasceu em 1799, filha de uma rica família de Moscou. Mais tarde, no exílio que os levou à França e pós a morte do pai, converteu-se ao cristianismo, casou-se com o Conde de Ségur e com ele teve oito filhos, aos quais dedicou-se integralmente. Seus livros são resultado deste cuidado e, ao que indicam os trechos de suas demais obras, possuem franca inspiração e coerência com a fé cristã, além de retratarem com propriedade e riqueza a vida, os comportamentos e as fantasias das crianças de então.

Ao que pude perceber, os títulos da Condessa saíram de moda e avançam rumo ao mergulho no esquecimento, pois não há edições mais recentes em nossas editoras nacionais. É uma dupla pena: pena para os editores - especialmente os cristãos -, que deixam de enobrecer o seu católogo e influenciar de modo imensamente positivo as novas gerações; pena para nós, leitores, que vemos aumentar a cada dia a quantidade de deformidades morais publicadas e vendendo como água, escasseando sempre mais a boa literatura. Sorte nossa que existem bons sebos por aí.

O exemplar que tenho comigo de "As meninas exemplares" é uma edição publicada pela Ediouro em 1984 e possui ilustrações, notas de rodapé com listas das palavras provavelmente desconhecidas e seu respectivo significado e, além disso, um pequeno questionário ao final do livro organizado de acordo com os capítulos, com a finalidade de ajudar os pais e as crianças a perceberam o quanto a história está sendo assimilada. É importante saber que "As meninas exemplares" é o segundo livro de uma trilogia, mas que pode ser lido separadamente sem prejuízo algum para sua compreensão.

Trata-se, sem dúvida, de um texto equilibrado, que não caricaturiza a criança dando-lhe ares tolos e infantilizadores, mas também não lhe rouba a ingenuidade e a franqueza. Repleto de cenas de amizade, arrependimento, bondade, perdão e generosidade, "As meninas exemplares" nos "puxa para cima", apresentando-nos um padrão moral não muito distante no tempo e não muito difícil aos corações humildes. Deixo-lhes aqui algumas pequenas provas.

Este primeiro trecho marcou-me bastante, pois retrata a empatia e a generosidade na relação das duas mães viúvas:

"- E por que, então, vai nos deixar? - perguntou a Sra. de Fleurville.
- Porque preciso partir. Vou para a casa de minha irmã. Depois da morte de meu marido, ocorrida já há bastante tempo, fiquei sozinha, tendo apenas por companhia a minha pequena Margarida. Vivo num grande isolamento. E minha irmã convidou-me para ir morar com ela.
- Nesse caso, por que não fica aqui conosco? - insistiu a Sra. de Fleurville. - Margarida deu-se tão bem com Camila e Madalena, que certamente gostaria de permanecer na companhia delas. A senhora não acha?
(...)
- Quero que saiba, Sra. de Rosbourg, que não lhe faço este convite por mera gentileza - continuou a Sra. de Fleurville. - Como lhe disse, perdi também o meu marido. Ele morreu em combate na África. Creio que a senhora podia ficar morando comigo, porque assim faríamos companhia uma à outra. Além disso, como a senhora mesma reconhece, Margarida se sentiria melhor aqui, vivendo com Madalena e Camila.
(...)
- Pois bem - disse a Sra. de Fleurville. - Como estamos numa situação mais ou menos semelhante, volto a insistir no convite que lhe fiz para ficar morando comigo. A casa é muito grande, dá à vontade para nós e as crianças."

Já o trecho seguinte lembrou-me Sto. Agostinho:

"Assim que se viu a sós, Sofia colheu, mais que depressa, duas peras, não sem ter o cuidado de escolher as maiores. E escondeu-as no vestido.
Em pouco juntou-se às companheiras.
- Que é que há com você, Sofia? - perguntou Camila.
- Que é que há comigo? Ora, não há nada. Por quê?
- Sei lá? Estou achando você muito corada.
- Corada?
- Sim. Ela não está corada, Madalena? - insistiu Camila.
A outra olhou por um momento para Sofia:
- É... Engraçado! Ela está mesmo com o rosto muito vermelho.
- Não amolem! - exclamou Sofia. - Eu estou com a mesma cor de sempre. Acho melhor vocês irem andando.
(...)
Aí, então, num impulso de sincero arrependimento, Sofia tirou as peras de dentro do vestido e, num desabafo, contou tudo.
- Eu me sinto envergonhada do que fiz. Andei muito mal. Me perdoe, Camila, por ter deixado que desconfiassem de você. Mereço ser castigada - disse."

Por fim, um longo, mas lindo trecho sobre caridade:

"Saíram cedo. As crianças corriam alegremente pela estrada. De repente, viram debaixo de uma árvore, sentada no chão, uma menina chorando. Devia ter mais ou menos a idade delas e estava muito pobremente vestida.
- O que está fazendo aqui? - perguntou Camila.
- Nada... - respondeu soluçando a menina.
- Espere um pouco, Camila, que vou chamar mamãe - disse Madalena.
E voltou correndo ao encontro da Sra. de Fleurville, para dar-lhe notícia da menina que haviam encontrado. Apressando o passo, a Sra. de Fleurville, sempre seguida da Sra. de Rosbourg, em pouco chegava ao lugar onde se achava a desconhecida.
Perguntou-lhe qual era o seu nome. E ela, enxugando as lágrimas, respondeu:
- Lúcia.
O aspecto de abandono e pobreza da menina fazia um triste contraste com as quatro crianças que a cercavam.
(...)
- E por que está chorando? Diga. Responda. Pode dizer, minha filha.
- Eu... É porque... porque estou com fome... Ainda não comi hoje, madame.
- Meu Deus! - exclamou a Sra. de Rosbourg.
Imediatamente Camila pegou o cesto em que levavam o lanche do passeio e colocou-o diante de Lúcia:
- Pode comer à vontade. O lanche dá para todas nós.
(...)
- Este eu vou levar para minha mãe - respondeu Lúcia. - Ela também não comeu hoje.
- Tive uma ideia! - exclamou subitamente Sofia. - Que tal a gente ir até a casa de Lúcia com ela? Assim a mãe dela também pode lanchar com a gente, não é mesmo?
E a verdade é que, ao contrário do que acontecia habitualmente, Sofia viu, pela primeira vez, uma ideia sua ser aprovada sem reservas pelos adultos. Tanto a Sra. de Fleuriville quanto a Sra. de Rosbourg concordaram de pronto, e todo o grupo se pôs a caminho da casa de Lúcia."
O sucesso do livrinho foi tamanho que Chloe pediu-me que recomeçasse a leitura! E já avançamos quase até o meio da obra novamente!

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O machismo* "santo"

Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela
Efésios 5:25
"Vós, maridos, amai as vossas mulheres, 
como também Cristo amou a igreja, 
e a si mesmo se entregou por ela."

Efésios 5: 25


Assim como o feminismo, o comunismo e vários outros "ismos" invadiram as igrejas, também o machismo nelas se encontra presente, não raras vezes travestindo-se de santidade, apresentando-se sob a forma de uma pretensa correção doutrinária, pronto a expandir-se e fazer novas vítimas. Refiro-me aqui especificamente a um assunto que a muitos talvez soe antiquado, ultrapassado e quase surreal: a virgindade.

Enquanto para a maioria dos não-cristãos isso sequer é assunto, tão disseminado está o "vale-tudo" sexual, para alguns cristãos, especialmente àqueles que mantém o desejo de um casamento único e definitivo, conservando, para isso, a castidade de seus corpos, a questão é séria, muito séria. Tais cristãos, sejam eles homens ou mulheres, exigem que o pretendente a cônjuge tenha se mantido igualmente casto, pois, ao que lhes parece, deve haver uma simetria no sacrifício. Todavia, existe um fato que aumenta a dificuldade da questão, um fato geralmente e intencionalmente ignorado: Muitos daqueles que hoje são cristãos vieram de famílias não-cristãs, ou seja, foram educados (ou des-educados) desconsiderando o cuidado com suas vidas sexuais, ignorando o quanto isso poderia repercutir em suas vidas, às vezes para sempre.

O machismo "santo" aparece então sob a forma de cobrança, inconformidade ou até de humilhação da pessoa que teve uma vida sexual mais ou menos ativa antes da conversão. É como se a pessoa pudesse saber o que haveria de acontecer consigo e com sua vida nas épocas seguintes ao ato consumado e tivesse escolhido "não se guardar" para o futuro cônjuge; como se o tempo longe de Cristo, sofrendo toda a sorte de consequências provenientes de uma tal separação, não fosse punição suficente pelos pecados cometidos; como se, na verdade, a pessoa não valesse a pena, não justificasse o voto de castidade do cônjuge. Em casos mais extremos ainda, boas pessoas, cristãos fieis e firmes na fé, são refugados como gente inadequada, indigna, quase tão impura como os leprosos do tempo de Jesus, sob a desculpa covarde e arrogante de que "é difícil lidar com um passado desses".

Em minha própria experiência conjugal, graças ao bom Deus, vivi o oposto disso tudo: experimentei a plena compreensão e aceitação do meu marido. Já no início de nosso noivado fiz questão de contar a ele não apenas sobre minha vida sexual, mas sobre toda a minha vida, com todos os episódios dolorosos, tristes e reprováveis, não deixando nenhum sequer de fora. Minha atitude foi baseada no desejo do estabelecimento de uma base honesta para a nossa relação, onde ele soubesse exatamente quem tinha sido aquela pessoa com a qual pretendia se casar, evitando qualquer tipo de surpresa indesejável. Para a minha felicidade, Gustavo soube avaliar não somente o meu histórico, mas especialmente aquilo que Cristo havia feito por mim, ao me resgatar, me perdoar e me santificar. Em momento algum me julgou, me reprovou ou me humilhou, mas louvou a Deus pela mão poderosa com que me salvou e me transformou. Desde esse dia sinto-me cada vez mais aceita e invariavelmente amada por meu marido e isso me aproxima ainda mais dele e de Cristo.

Assim, deixo aqui o meu apelo a tais irmãos, homens e mulheres que, apesar da dificuldade do desafio, desejam se conformar ao exemplo de Cristo, para que saibam valorizar seus pretendentes como Cristo os valoriza, não fazendo vistas grossas, ignorando o passado, mas contextualizando, compreendendo, perdoando e esquecendo. E mais: vendo quem eles se tornaram e quem ainda desejam se tornar em Jesus. Afinal, todos nós temos um passado, que pode não ser um embaraçoso passado sexual, mas é um passado que nos marca, que nos pesa, que nos influencia e que também precisa ser confessado e deixado para trás. Ou seja, cometemos pecados diferentes, mas todos somos igualmente pecadores.

Que possamos ter a grandiosidade de amar como fomos amados por Cristo, assombrando o mundo com um tão escandaloso e forte amor.


* O uso que aqui faço do temo "machismo" é bastante restrito, referindo-me a estes sentimentos de posse e de superioridade, que podem ocorrer tanto a homens quanto a mulheres, no tocante à questão da virgindade do possível ou efetivo parceiro. O machismo, no entanto, em sua plena acepção, extrapola em muito essa questão, tornando-se praticamente uma concepção antropológica.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Quem são os pecadores?

"Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus."

Romanos 3:23

Em tempos de hipersensibilidades, melindres, depressões e mimimis de todo o tipo, onde a simples possibilidade de ser considerado pecador já causa chiliques histéricos em membros de "minorias indefesas", compartilho aqui uma conversa que tivemos recentemente com a Chloe, após a leitura da Bíblia.

A intenção é mostrar (por meio da explicação que demos à nossa filha, uma menina de 6 anos de idade), como o cristianismo, ao contrário do que se propagandeia por aí, não é uma religião discriminatória, uma religião onde os fiéis estão acima dos não-cristãos, mas, ao contrário, é uma religião onde todos estão em pé de igualdade.

Tudo começou com a pergunta da Chloe:

- Quem são os pecadores?

Gustavo iniciou explicando que os pecadores são todos aqueles que desobedecem a Deus. E é claro que é isso mesmo, mas como havia tanta coisa pressuposta na resposta, achei por bem desdobrar um pouco mais a ideia.

Expliquei então que todas as pessoas são pecadoras, inclusive eu, o papai, a Chloe e o Benjamin. Todas, todas. Em todas as épocas. Mas que existia uma diferença bem importante: Alguns pecadores entendiam que, ao desobedecer aquilo que Deus dizia ser certo, precisavam se arrepender, precisavam pedir perdão, e tentavam não desobedecer novamente, enquanto que os outros pecadores não se importavam com Deus e por isso não se arrependiam, não pediam perdão e continuavam desobedecendo. Assim, os pecadores que se arrependem ficam cada vez mais perto de Deus, enquanto os outros, estes ficam cada vez mais longe.

Ou seja, a pretensa superioridade e arrogância do cristão está em reconhecer que é um zero, um pobre desgraçado, um infeliz que precisa constantemente de perdão e dos méritos de Cristo para ter esperança de conserto. Mas óbvio que as "minorias indefesas" são boas demais para isso.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Livros e corujas

"Porque o Senhor dá a sabedoria; 
da sua boca é que vem o conhecimento e o entendimento.

Ele reserva a verdadeira sabedoria para os retos. 
Escudo é para os que caminham na sinceridade..."

Provérbios 2: 6,7


Hoje em dia muito se fala e muito se estimula o chamado hábito da leitura. Ler, ler de tudo, ler sempre. Eu mesma já fiz parte desse "time". Acreditava que a educação era a salvação do mundo, em todos os sentidos. 

Há não muito tempo, no entanto, provavelmente em decorrência da chegada da Chloe à idade da alfabetização, passei a ver a questão de um modo diferente. Sim, a leitura é uma prática desejável. É bom que se queira ler e que se leia. Sim, a educação é desejável. É bom que todos sejamos mais educados. Mas será mesmo que não há diferença entre os livros? Todos trarão os mesmos benefícios? O quê exatamente pensamos quando falamos em educação? Sabemos mesmo o que estamos defendendo, reivindicando, propondo?

Percebi, então, que o assunto tinha virado um grande clichê nacional, um jeito instantâneo de resolver problemas e obter consenso entre gregos e troianos, chimangos e maragatos, esquerdistas e direitistas. Um verdadeiro passe de mágica, pura fantasia que, na prática, acalmava os ânimos enquanto os interlocutores louvavam uns aos outros sem comprar um novo livro sequer, sem jamais se propor nenhum desafio intelectual sério. Enfim, coisa de adultos bem-intencionados que não sabem para onde ir e que levam consigo as suas crianças para esse mesmo lugar: lugar nenhum, qualquer um.

Caí na real e passei a pesquisar. Nessa pesquisa a primeira descoberta foram as minhas próprias deficiências, lacunas e confusões. Concluí, então, que antes de querer elaborar qualquer plano doido de estudos e leituras, deveria mesmo voltar àqueles textos que alimentassem moralmente minha filha. Livros, fábulas, poesias que consolidariam o tão politicamente incorreto padrão moral cristão ocidental: Deus, família, justiça, compromisso, honra, obediência, beleza, justiça, respeito, dever...

Talvez alguém aí se pergunte o motivo de eu priorizar justamente isso, o aspecto moral, nas leituras a serem oferecidas à Chloe - e futuramente ao Benjamin também -. E eu respondo que de nada adiantará enchê-los de técnicas, de habilidades, de informações se eles próprios não estiverem sabiamente amparados pelo padrão moral correto, se eles não souberem usar o que sabem e o que virão a saber não somente em proveito próprio, mas também em benefício de outros - ou, no mínimo, sem prejudicá-los -. Em outras palavras, mais importante do que a aquisição de conteúdos propriamente ditos é a aquisição da habilidade de discerní-los e de saber usá-los corretamente, moralmente. Logo, fica evidente que não é qualquer livro que contribui nesse sentido, mas, ao contrário, a maioria de hoje dia atrapalha bastante.

Por fim, deixo aqui, a título de exemplo de literatura contemporânea alinhada aos padrões cristãos, um dos melhores trechos, na minha opinião, da série de livros que temos lido todas as noites para a Chloe - além da Bíblia. Trata-se, sem dúvida, de um material de grande valor: concluímos o terceiro volume sem perceber, nem eu, nem o Gustavo, nenhum deslize da autora, nem em termos de trama, nem de valores morais. Recomendo os livros ainda mais vivamente que o filme, pois apesar deste último ser muito bom, é uma adaptação um tanto diferente das obras de origem.

"Boron continuou a falar:
- Leva tempo, o que eu acho que vocês têm de sobra. Exige paciência, o que não sei se vocês têm em quantidade suficiente. E, o mais importante, exige dedicação, e isso, meu jovem, é encontrado no coração e na moela. A nobreza das corujas que vocês veem aqui no parlamento não foi simplesmente concedida, nem foi conquistada em atos de coragem. A nobreza nem sempre é encontrada no brilho das garras de batalha, ou ao se voar no calor das emoções das tempestades de fogo, ou mesmo ao fortalecer os fracos, dar coragem aos desanimados, dominar os orgulhosos ou tirar o poder dos que abusam dos indefesos.
A moela de Soren se aquietou quando Boron falou.
- Ela também é encontrada nos corações decididos, nas moelas que conseguem resistir às tentações de falsos sonhos, nas mentes que têm a sensibilidade para entender a dor do outro, como acho que uma jovem coruja fez hoje à noite quando ficou com a coruja-anã, confortando-a em silêncio depois que ela perdeu sua árvore, seu ninho, sua família e o ovo. Todos esses fatores acabam por conferir nobreza e fazem os Guardiões de Ga'Hoole levantar voo na noite com os corações exultantes."
A lenda dos Guardiões, volume II - A Jornada, de Kathryn Lasky.